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Lobista sim, e daí?

Lobista sim, e daí?

Quem são e como atuam os profissionais do lobby que assumem sua identidade.
Ainda associado a corrupção e tráfico de influência, o lobby está
cada vez mais difundido e transparente no país. Veja quem são
e como atuam os lobistas assumidos.
Romeu de Bruns Neto

A cobrança de impostos em cascata atazana a vida de dez em cada dez empresários – que não titubeiam em soltar os cachorros na Receita Federal por causa disso. Para Ivo Riedi, dono de uma companhia cerealista com sede em Palotina (PR) chamada IRiedi, a situação é ainda mais complicada. A minirreforma tributária de 2002 aumentou a alíquota do PIS e está abalando a competitividade das cerealistas – empresas que, entre outras atividades, compram e vendem grãos. Essas companhias não podem se valer das vantagens fiscais que a minirreforma concedeu às indústrias, que só precisam pagar o PIS uma vez. Também não gozam do tratamento tributário simplificado dado às cooperativas, suas concorrentes.
Riedi queria ser ouvido pelo governo, mas se considerava pouco representado pelas entidades ligadas ao setor agropecuário. Por isso, ele e outros 40 empresários criaram em abril deste ano a Associação das Empresas Cerealistas do Paraná (Acepar). Por ser uma iniciativa pioneira, a Acepar está ajudando na constituição de uma associação nacional e de entidades semelhantes no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso. Já se estuda uma representação permanente na capital federal. “Pelo menos três vezes ao mês, temos um representante circulando em Brasília. Às vezes, nem há uma agenda predefinida. O importante é mostrar a cara para os parlamentares que apóiam nossa causa”, conta Ronildo José Chiaradia Filho, secretário executivo da Acepar. Os primeiros resultados estão aparecendo: a entidade conquistou a simpatia de parlamentares paranaenses e, desde o fim de julho, está tratando o assunto diretamente com o secretário da Receita Federal, Jorge Deher Rachid.
Não é de hoje que empresários se organizam para defender seus interesses junto ao poder público. Desde 1811, há registros da atuação da Associação Comercial da Bahia, uma instituição fundada para influenciar o Congresso Nacional da Primeira República. Contudo, o caso dos cerealistas ilustra bem uma prática que se firmou para valer a partir da Assembléia Nacional Constituinte de 1988 e segue crescendo: a participação de empresas, associações, sindicatos e ONGs – os chamados “grupos de pressão” – na elaboração de projetos de lei e de políticas públicas. Em outras palavras, o lobby está cada vez mais comum no país.
Ao contrário do que muitos vão pensar, essa é uma boa notícia. A popularização vem contribuindo para tornar a atividade de lobby mais profissional e transparente no Brasil – e mais próxima da concepção que os americanos têm da prática. Em inglês, a expressão se refere ao saguão do Congresso dos EUA, onde era possível travar contato direto com os parlamentares no início da república. “A decisão de bastidores está em fase de eliminação no Brasil. Nessa perspectiva, o lobby ‘feito à luz do dia’ tem contribuído para o aperfeiçoamento da democracia”, defende Antonio Augusto de Queirós, diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Como lembra um dos mais importantes industriais do país, que prefere não se identificar: “No campo do Judiciário, um juiz não decide sem antes ouvir as partes. Não há por que os membros do Executivo ou do Legislativo procederem de outra forma”. O empresário optou por permanecer anônimo porque, segundo ele, há uma confusão de conceitos que faz o lobby ser ainda muito malvisto.
A atitude do industrial é compreensível. No entendimento popular, o lobby é quase sempre associado a atividades ilícitas e à corrupção. Casos de tráfico de influência são comumente tratados como resultado da ação de lobistas. Em outubro de 2001, vieram à tona as investigações da Polícia Federal sobre as atividades de Alexandre Paes dos Santos, apresentado como o “lobista mais poderoso de Brasília”. Seu principal método de trabalho era se aproximar de funcionários modestos com acesso a informações estratégicas. No material apreendido pela PF no escritório de Paes dos Santos, havia uma agenda com menções a vários deputados que apareciam sempre junto a um número e à letra K (mil). Um deputado chegou a dizer que Paes dos Santos tinha “bancada própria”.
Há, no entanto, uma categoria de profissionais que vem se pautando por uma atuação mais transparente, que privilegia o contato com as autoridades com hora marcada, assunto pre-definido e no local de trabalho. Por conta do preconceito, nem todos apreciam a denominação “lobista”. Muitos preferem ser chamados de consultores ou profissionais de relações governamentais. Mesmo nos Estados Unidos, berço da atividade, há os que optam pelo termo advocacy. “O lobby profissional, como defesa legítima de interesses, não se confunde com corrupção ou tráfico de influência”, define o advogado Guilherme Farhat Ferraz, que gerencia o escritório de Brasília da Semprel, empresa especializada em relações governamentais. Ele atende a uma clientela predominante industrial e interessada em acompanhamento dos temas tributários debatidos no Congresso. “A lei define muito bem o que é corrupção, e qualquer pessoa de bom senso conhece os limites”, explica Farhat. “O trabalho de acompanhamento do Legislativo é indispensável, assim como é importante manter um fluxo contínuo de informações sobre o setor”, justifica o vice-presidente da Abiquim, Guilherme Duque Estrada de Moraes.

Assessoria – A Semprel atua em um segmento de mercado disputado por empresas como a Patri, a Umbelino Lobo, a Arko Advice e a RN Consultores Associados. São escritórios especializados em relações governamentais. Fazem o meio-de-campo entre associações, instituições e empresas, e o governo. Sublinhe-se aqui a expressão “meio-de-campo”. Esses profissionais realizam um trabalho de planejamento e de assessoramento. O lobby, a defesa dos interesses propriamente dita, fica para o cliente (como a Acepar está fazendo). “Para defender sua posição, ninguém melhor do que a pessoa interessada. No caso, o empresário ou presidente de entidade”, aponta Antônio Marcos Umbelino Lobo, diretor-superintendente da Umbelino Lobo, que trabalha basicamente com associações de classe empresariais, entre elas a Abiquim.
Essa atividade de suporte, que faz do profissional uma espécie de expert na geografia do poder e nos processos governamentais, tem contribuído aos poucos para apagar a imagem do lobista como um sujeito que circula com uma mala cheia de dinheiro e uma agenda telefônica repleta de números. “Hoje, conhecemos mais processos e menos pessoas”, aponta Eduardo Ricardo, fundador e diretor da Patri, que existe há 16 anos e tem entre seus clientes a Bovespa. “Quando comecei, o lobby era tido como serviço de despachante de luxo ou como tráfico de influência”, lembra Ricardo.
Na versão modernizada do lobby, esses profissionais também são intérpretes: fazem a tradução do “politiquês” para o “empresarialês”. Tome-se como exemplo a reforma tributária. O escritório acompanha os temas discutidos, mas não basta saber o que está em trâmite. Além de calcular as conseqüências para o negócio de seu cliente, o consultor precisa usar sua experiência no trato com o Congresso para avaliar as chances de uma emenda ou projeto ser aprovado. “Muitos projetos servem apenas para atender a uma demanda da base eleitoral do parlamentar, mas não se tornarão leis de fato. É necessário saber identificar esse tipo de situação”, aponta Farhat, da Semprel.
Como se pode perceber, trata-se também de uma atividade de estratégia que, em um país de cultura burocrática e de longos trâmites para aprovação de leis, requer boa dose de paciência. A Umbelino Lobo, por exemplo, passou quatro anos assessorando o Sindicato das Empresas Distribuidoras de Combustíveis para a aprovação da emenda constitucional que instituiu a Cide. A assessoria incluiu estudos financeiros e jurídicos, visando à criação de uma blindagem contra a chamada “indústria de liminares”, além de extensas negociações com o Ministério da Fazenda, Receita Federal e Congresso. Inicialmente, o Cide tinha como uma de suas funções o controle da venda de combustíveis, contribuindo para reduzir a atividade ilegal no setor. A estratégia incluiu o envio de correspondência a parlamentares, publicação de artigos nos principais jornais do país e entrevistas à imprensa. Depois que o governo encaminhou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), as reuniões com os congressistas prosseguiram, sempre batendo na tecla da necessidade de moralização do setor. “É preciso buscar ao máximo o discurso único, com muita coerência. O trabalho começa a dar resultado quando se começa a dormir no próprio discurso, de tanto que ele tem de ser repetido”, brinca Lobo.
A digitalização de documentos da Câmara com disponibilidade na internet facilitou bastante o acompanhamento do Legislativo, mas não eliminou uma das características originais da atividade de lobby, que é o corpo-a-corpo. Não que seja necessário passar o dia no Congresso. “Tem gente que transforma o cafezinho da Câmara em escritório e fica malvisto”, conta Roberto Nogueira, diretor da RN Consultores Associados. Especialista em assuntos tributários, ele é autor do livro A Reforma Essencial – Uma Análise sob a Ótica Empresarial das Propostas e dos Bastidores da Reforma Tributária. (Geração Editorial, 2002)

A exemplo de outros escritórios do ramo, Nogueira tem um assessor que faz a coleta diária de documentos produzidos pelo Congresso. Mas ele não deixa de ir às audiências públicas mais importantes. “A presença no Congresso é fundamental porque lá se debate muito e em alto nível”, explica o consultor. “Há facilidade de acesso aos deputados ou senadores se você não está lá para discutir um interesse muito particular. E se é um empresário que vai até o parlamentar e faz uma defesa institucional, aí o tratamento é mais sério, dá mais legitimidade”, explica Nogueira.

Regulamentação – A modernização do lobby brasileiro ganhou força com as novas práticas para formulação de políticas, especialmente as audiências públicas adotadas a partir da Constituinte. É uma prática que serviu para tornar mais visível a presença dos profissionais do lobby. “Hoje, nenhum projeto de lei importante é feito sem passar por audiência pública. Daí, todos têm a oportunidade de dizer o que querem, inclusive os lobistas”, afirma Rosinethe Monteiro Soares, que controla com o filho Pedro Henrique e o genro Márcio Carvalho a Essere Consultoria Política. A Essere já prestou serviços para a Ambev e para o deputado Inocêncio Oliveira (PFL).
Nas audiências públicas, a atuação desses profissionais é intensiva. “Há audiências com mais lobistas do que parlamentares”, conta o deputado federal Florisvaldo Fier (PT/PR), membro da Comissão Mista de Orçamento, da Comissão Especial da Previdência e da Comissão de Fiscalização. Entretanto, a participação deles nas audiências não está regulamentada por lei, como nos Estados Unidos. Lá, o registro deixa muito claro quem está falando em nome de quem, o que por aqui não acontece. Nos EUA, ninguém pode abordar um legislador sem estar devidamente registrado, e os lobistas têm autorização apenas para discutir temas relacionados a seu registro. Essa é a diferença prática fundamental entre os dois países. Além disso, a legislação americana impõe limites de gastos com presentes (US$ 100 ao ano) e jantares (US$ 50 por evento) oferecidos ao parlamentares. A lei também obriga as empresas a declarar os gastos com a defesa de seus interesses e com campanhas eleitorais.
No Brasil, o único projeto de lei que prevê a legalização do lobby é de autoria do senador e ex-vice-presidente Marco Maciel e já tramita no Congresso, há quase 15 anos. Volta e meia, o projeto retorna à pauta, mas não há uma previsão sobre quando deverá ser votado. “A agenda legislativa no Brasil é muito complicada. Tem as reformas da previdência e tributária, a questão do combate à fome. A regulamentação fica em terceiro plano”, acredita o cientista político André César, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (Ibep).
O projeto de Maciel tem duas bases fundamentais: o registro da atividade e a prestação de contas. “Não estou defendendo lobistas. O que quero é acabar com o lado obscuro da atividade, que permite o tráfico de influência. Se houver uma disciplina, é possível punir as desobediências”, explicou Maciel a AMANHÃ. Apesar de aplaudirem a iniciativa, os profissionais da área reclamam que o projeto já está muito defasado. Rosinethe, da Essere, alega que a participação em audiências públicas, por exemplo, não está prevista. Mas Maciel não vê problema em corrigir o projeto. “Atualizações e melhorias são perfeitamente viáveis e fazem parte do processo legislativo”, contrapõe o senador.
Uma evidência de que o lobby é um instrumento democrático é o fato de ter reaparecido no final dos anos 70, quando a ditadura começou a arrefecer. Durante boa parte do regime militar, os grupos de pressão, principalmente na área sindical, sofreram forte intervenção por parte do governo. Para o cientista político Murilo Aragão, a campanha da anistia, que mobilizou estudantes, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados (OAB) e outros segmentos, é o exemplo mais notável dessa retomada.
Diretor-presidente da Arko Advice, escritório de assessoria política em Brasília, Aragão é autor de um dos poucos trabalhos acadêmicos que buscam fazer um raio-x do lobby feito no país. O estudo – intitulado “A Ação dos Grupos de Pressão nos Processos Constitucionais Recentes no Brasil” e publicado na Revista de Sociologia e Política, da Universidade Federal do Paraná – faz um relato da atuação do lobby em três momentos da história recente do Legislativo brasileiro: a Assembléia Nacional Constituinte (1987-1988); a Revisão Constitucional (1993-1994) e a Reforma Constitucional iniciada em 1996.
Aragão identificou 383 grupos, com nome e área específica de interesse – todos envolvidos nas disputas em torno da nova Constituição. O cientista lembra que todos os recursos legais conhecidos foram utilizados, tais como grass roots (ações voltadas à base eleitoral do parlamentar), promoção de encontros de trabalho e de eventos sociais, propaganda nos meios de comunicação, distribuição de posters e panfletos, além de manifestações nas ruas, em torno e no interior do Congresso – inclusive nas galerias do Plenário. “Com mais de 300 artigos aprovados, dificilmente algum grupo deixou de ser atendido”, lembra Aragão.
Estrangeiros – Apesar das diferenças de regulação com os países nos quais o lobby é mais sofisticado, o Brasil não deixa de atrair a atenção de escritórios de atuação internacional. Com um faturamento global de US$ 260 milhões em 2002, a Burson-Marsteller aposta na profissionalização da atividade no país e vislumbra um interesse crescente por parte da iniciativa privada em uma aproximação com o Estado. Esse tipo de empresa atua de maneira diferente dos escritórios citados antes. Especializadas em Relações Públicas, companhias como a Burson ajudam os clientes a se comunicarem – incluindo aí o diálogo com o governo e com o Legislativo. Nas contas do diretor da agência no Brasil, Ramiro Prudêncio, há muito mercado para ser explorado no país. Apesar de a economia norte-americana ser 14 vezes maior que a brasileira, as dez maiores companhias de comunicação corporativa faturam 64 vezes mais que as dez principais brasileiras. “A tendência é que no futuro essa distância diminua, com as empresas alocando cada vez mais verbas para a comunicação não-publicitária”, aposta Prudêncio.
Especialistas em RP como a Burson-Marsteller também auxiliam as companhias no trato com a mídia, que é utilizada cada vez mais na defesa dos interesses empresariais. Professor de Jornalismo da USP, Wilson da Costa Bueno explica que há uma tendência mundial de lançar mão de estratégias de lobby voltadas para a mídia, colocando em segundo plano o corpo-a-corpo com parlamentares. “Uma coisa é passar uma documentação técnica para um deputado. Outra bem diferente é quando o assunto já foi dissecado na imprensa. O impacto é brutal”, aponta Bueno, que também é autor do livro Jornalismo Científico, lobby e Poder. “Não é uma ação negativa, já que os interessados se movem para vigiar uns aos outros. Mas a sociedade e principalmente os jornalistas precisam estar atentos a isso, especialmente nos assuntos ligados a ciência e tecnologia, e ouvir o máximo de fontes para não se tornarem instrumentos de interesse e caráter duvidosos”, explica.
Dissimular campanhas nos meios de comunicação é visto com reservas pelos profissionais da área. Bueno aponta o caso da Microsoft, relatado pelo jornal inglês The Guardian, em julho de 1999. Às vésperas de um julgamento importante na ação antitruste que sofria, a gigante do software gastou US$ 150 mil na publicação de anúncios que apoiavam a empresa na disputa jurídica contra o governo dos EUA. O problema foi a Microsoft tentar disfarçar sua participação na campanha, ao assinar a peça publicitária em nome da consultoria Independent Institute, um habitual prestador de serviços à fabricante do Windows.
Outro exemplo de comportamento discutível é o da organização Arise, fundada no final da década de 80 e integrada por cerca de 50 cientistas, quase todos europeus, que têm como objetivo divulgar resultados de pesquisa que vão ao encontro de grandes interesses empresariais. Entre os patrocinadores da Arise estão gigantes como Philip Morris, Coca-Cola e Nestlé. Por isso, geralmente, suas pesquisas caminham para confortar os que fumam demais ou os que não resistem a um alimento calórico. São estudos que apontam os efeitos calmantes do fumo e do chocolate ou que mostram as melhorias na visão causadas pelo café.
Outra estratégia que vem ganhando força são os think tanks (algo como tanques pensadores). Com o objetivo de influenciar políticas públicas, determinados grupos se utilizam de acadêmicos, ex-funcionários públicos e pesquisadores para a produção de artigos e estudos. Apesar de às vezes terem uma inclinação assumida, esses documentos normalmente são publicados sob uma “aura de imparcialidade”. Por enquanto, os think tanks são pouco comuns no Brasil – mas eles devem aparecer aos poucos, à medida que a prática de lobby cresça e se profissionalize ainda mais no país.
“Eu não faço lobby”
Fazer lobby hoje em dia é fundamental. Melhor, obrigatório – desde que não se use essa palavra. Um dos principais empresários do país só aceitou conceder entrevista sobre o assunto na condição de off porque, para ele, há muita confusão de conceitos. “Depois vão dizer que eu defendo o lobby, só que aludindo ao tráfico de influência”, justifica. No Congresso, também há quem queira distância do termo. Mesmo com a evidente atuação em favor dos interesses do agronegócio, o presidente da Frente Parlamentar de Apoio à Agropecuária, o deputado federal Ronaldo Caiado (PFL/GO), diz que o trabalho da bancada é eminentemente técnico e por isso não pode ser chamado de lobby. Na opinião dele, a defesa do setor primário é tão ampla que não se enquadra na atividade lobista, que ele vê como algo ligado a demandas de segmentos mais específicos.
O assessor parlamentar da Frente do Cooperativismo, Nelson Vieira Fraga Filho, é outro membro do Congresso que não simpatiza com a expressão. “lobby está ligado a interesses financeiros”, entende. Funcionário de carreira da Câmara dos Deputados, Fraga Filho trabalha identificando projetos que possam afetar a vida das cooperativas, sejam elas de médicos ou trabalhadores rurais, e propõe alterações. Foi assim no caso da Medida Provisória 107, que regula a cobrança do PIS/Cofins. O assessor trabalhou pela inclusão de uma emenda que, se não isentou, pelo menos deu alívio ao caixa das cooperativas agrícolas e de eletrificação rural.
Grupos de interesse
O último levantamento sobre os grupos de interesses que atuam no Congresso Nacional data de 1997 e foi realizado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Apesar da eleição que renovou a Câmara dos Deputados e o Senado em 2002, continuam sendo estes os principais grupos do Congresso:
- Bancada Feminina;
- Frente Parlamentar da Pequena e Microempresa;
- Bancada da Amazônia Legal;
- Frente Parlamentar Metro-ferroviária;
- Frente Parlamentar de Habitação e Desenvolvimento Urbano;
- Bancada da Agricultura Familiar;
- Frente Parlamentar Sucroalcooleira;
- Bancada Sindical;
- Bancada Evangélica;
- Bancada dos Proprietários de Meios de Comunicação;
- Bancada dos Empresários;
- Frente Parlamentar da Educação;
- Bancada da Saúde;
- Bancada Ruralista (Frente Parlamentar de Apoio à Agropecuária).
Brazil on the hill
Acredite: o Brasil faz lobby no Congresso norte-americano. Trata-se do projeto “Brazil on the Hill”. Hill, morro em inglês, é como muitos em Washington se referem ao congresso, que fica em uma colina. O trabalho é patrocinado por uma entidade sem fins lucrativos, o BIC (Brazil Information Center). A idéia é apresentar a congressistas norte-americanos uma pauta variada, que passa por assuntos como a visão do governo Lula da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ou a política brasileira de combate à Aids. Em junho, o “Brazil on the Hill” promoveu um evento para 40 assessores legislativos no Capitólio. O tema do encontro: os cinco primeiros meses do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
O projeto é coordenado pelo brasileiro Renard Aron, diretor da Shear Communications, empresa de public affairs com sede em Washington. Aron está na capital norte-americana desde 1994. Trabalhou no Departamento de Comércio dos EUA (equivalente ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), na US Chamber of Commerce e dirigiu o escritório da consultoria brasileira Patri na capital norte-americana até abrir seu próprio escritório. “Represento interesses brasileiros em Washington”, resume.
Aron garante que não é difícil fazer lobby do Brasil nos Estados Unidos. “A presença de 40 assessores é excelente. Há um grande interesse pelo Brasil e já existe até uma bancada brasileira no Congresso americano”, comenta. A bancada surgiu há três anos, resultado de uma iniciativa do embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, e do Conselho Empresarial Brasil–Estados Unidos. Hoje, reúne 58 congressistas. “É claro que os interesses desses parlamentares são americanos, mas isso dá uma idéia da importância que o Brasil já alcançou em Washington.”.
Modelo de lobby
Apontada por especialistas como referência no tema desta reportagem, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) mantém no Congresso Nacional, desde 1967, um grupo de acompanhamento legislativo. “A CNI é uma entidade de representação de interesses que se assume assim e não tem nenhum constrangimento por isso”, avisa Carlos Alberto Cidade, coordenador da Unidade de Assuntos Legislativos da Confederação. Essa unidade tem 21 técnicos. Eles monitoram atualmente 2 mil projetos de lei que interferem diretamente no dia-a-dia das indústrias, em áreas como meio ambiente, contratos, tributos, relações com o trabalhador e com o consumidor.
Os projetos são selecionados diariamente, passam por análise dos departamentos jurídico e econômico, e também pelos conselhos da instituição. A partir do momento que a CNI define um ponto de vista sobre o assunto, lança mão de estratégias como participar de consultas e audiências públicas e enviar requerimentos e propostas de emenda. “Cada vez que vamos ao Legislativo, procuramos deixar claro que os interesses que defendemos são uma posição institucional, fundamentada em documentos técnicos”, ressalta Cidade.
Anualmente, a CNI elege os principais projetos a ser acompanhados e os inclui na Agenda Legislativa da Indústria, uma publicação que acaba de completar seu oitavo ano. A última edição foi lançada em março, num almoço que reuniu cerca de 100 parlamentares na sede da entidade, em Brasília.
Igualmente articulada, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) segue um expediente diferente do da CNI. Os assuntos legislativos estão sob a tutela do Departamento de Comunicação, que abrange desde assessoria de imprensa até fornecimento de estudos e boletins técnicos a parlamentares. Além de utilizar seu departamento técnico – que avalia projetos ligados a financiamento, previdência, comércio exterior e outros –, a CNA se uniu à Organização das Cooperativas Brasileiras e à Sociedade Rural Brasileira. Juntas, mantêm um fluxo contínuo de informações a deputados e senadores.
Conforme Otília Riethe Olart, coordenadora de comunicação da CNA, o mutirão tem contribuído para que, dentro da bancada, os parlamentares se organizem em subgrupos, debatendo temas específicos. Contudo, a diferença fundamental em relação à indústria é que a CNA trabalha com uma bancada estruturada – por sinal, a maior do Congresso. Trata-se da Frente Parlamentar de Apoio à Agropecuária, que é formada por 273 deputados federais e 15 senadores.
Fonte: Revista Amanha www.amanha.com.br Edição 192 outubro de 2003

Comentários

Ótimo texto. Eu, que me considerava ignorante em relação ao termo 'lobby' agora consigo até debater sobre o tema graças à didática do texto e aos amplos exemplos apresentados... Obrigada!

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