Pular para o conteúdo principal

Lobby do Brasil nos EUA é tímido se comparado ao de outros países

RAUL JUSTE LORES DE WASHINGTON 14/12/2013 - 03h00 "Quantas grandes empresas e universidades brasileiras têm presença permanente em Washington? Quantos canais de diálogo fora do governo existem para se avançar ou discutir os interesses brasileiros nos EUA?", pergunta Michael Werz, pesquisador-sênior para países emergentes do Center for American Progress, um centro de estudos ligado ao Partido Democrata. Ele mesmo responde. "Quase nada. Nesta cidade, o Brasil parece país pequeno". A opinião é compartilhada por dezenas de especialistas em relações internacionais da capital americana ouvidos pela Folha. Em tempos em que a relação entre os governos Dilma e Obama está na geladeira, por causa do escândalo de espionagem, a interlocução é modesta. "O Brasil claramente não tem uma narrativa em Washington", diz o presidente do think tank [centro de estudos] Interamerican Dialogue, Michael Shifter. PÁLIDO "Perto de outros emergentes, a presença do Brasil é pálida", concorda Julia Sweig, diretora do programa de América Latina do Council on Foreign Relations. As cinco maiores associações empresariais da Turquia têm escritório próprio na cidade para fazer contatos e lobby. Tanto México quanto Índia apostam na força da diáspora, com associações e prêmios a mexicanos e indianos-americanos de destaque. A representação brasileira aumentou nos últimos anos, com a criação de um escritório da Coalizão da Indústria Brasileira (BIC, da sigla em inglês), ligada à Fiesp, em 2000, e com o Brazil Institute, do Wilson Center, em 2006, único entre os 400 centros de estudos da cidade com programa exclusivo dedicado ao Brasil. "Outros países onde o peso da relação comercial com os EUA é similar investem bem mais", diz Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute. "O investimento de diversos países aqui é para conquistar acesso. É para ter amigos em Washington a quem ligar", diz Andrew Selee, que fundou o Mexico Institute do Wilson Center em 2003. O orçamento do instituto mexicano, com doações privadas, é quase três vezes maior que o do brasileiro. "Boa parte da agenda bilateral de EUA e México trata de assuntos domésticos, como comércio, imigração, segurança. Com o Brasil, é só geopolítico, que é bem menos influente com políticos e com o Congresso daqui". O patrocínio de estudos e pesquisadores nos centros de estudos não se trata apenas de divulgar a imagem desses países nos EUA, mas de influenciar governos no futuro. Vários think tanks são o empregador natural de democratas e republicanos quando não estão no governo. ETANOL "Em Washington é fundamental saber navegar o mundo do lobby, dos think tanks e da mídia para conseguir ser ouvido", diz Leticia Phillips, representante para a América do Norte da associação da cana e do etanol brasileiros Unica. A entidade fez lobby para o Congresso americano derrubar as altas alíquotas contra o produto --e conseguiu. A Coreia do Sul contratou vários escritórios de lobby para arrancar vantagens do acordo comercial bilateral e até para garantir mais vistos para profissionais coreanos. O acordo de livre comércio entre os EUA e a Coreia do Sul foi aprovado em 2011. O superavit que os coreanos têm com os americanos cresceu 60% em relação a 2010. O governo brasileiro não contrata escritórios de lobby nos EUA. A Coalizão de Indústrias Brasileiras (BIC) tem autorização para fazer lobby. Mas, segundo o site Open Secrets, que trabalha com os dados oficiais de lobby direto no país, a Coalizão investiu abaixo do valor que é registrado pelo site, de US$ 10 mil/ano. A Federação das Indústrias da Coreia do Sul gasta US$ 400 mil por ano em lobby direto. Um programa de estudos brasileiros na Universidade Georgetown teve seu auge entre 2000 e 2006, com patrocínio da Motorola, Coca-Cola e Alcoa, mas sofreu um baque após escândalo de corrupção. O coordenador do programa foi afastado e condenado depois do desvio de US$ 311 mil em notas fiscais frias a professores fantasmas. Ele fugiu dos EUA em 2005. Na semana passada, a Justiça americana discutia o arquivamento do processo por não conseguir localizar o réu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quem são e como atuam os lobistas de Brasília

Lobby às claras 20.06.2005 Quem são e como atuam os lobistas de Brasília que defendem os interesses das empresas e querem legalizar a atividade Por Gustavo Paul EXAME Estabelecer uma estratégia de atuação em Brasília é um grande desafio para as empresas brasileiras. De um lado, está a burocracia com suas exigências idiossincráticas e a vocação natural para transformar qualquer ação em letargia. De outro, o fantasma da corrupção que permeia a cidade e, especialmente nos últimos tempos, pode fazer supor que essa é a única forma de se relacionar com autoridades públicas ou personagens da capital federal. Apesar desse cenário pouco favorável, existem caminhos absolutamente legítimos para uma empresa defender pontos de vista ou interesses dentro da máquina pública federal. E, justamente por causa de escândalos como o dos Correios, um tipo diferente de lobista vem ganhando terreno no cenário brasiliense. Esses escritórios de lobby, grandes e pequenos, dedicam-se a fazer de forma absolutam

Gênero e Relações Governamentais

Gênero e Relações Governamentais Andréa Gozetto (FGV/IDE) Manoel Santos (UFMG) Eduardo Galvão (Pensar RelGov) Bruno Pinheiro (UFMG) Em 2018, a Pensar RelGov atualizou os dados da pesquisa “ O Perfil do Profissional de Relações Governamentais ”, realizada em 2015. Para essa atualização, foram entrevistados 265 profissionais da área. Os resultados obtidos nos permitem analisar diversas questões, entre elas: gênero, nível hierárquico, grau de instrução e remuneração dos indivíduos entrevistados. Nossa amostra é composta por 58,1% de profissionais do gênero masculino e 41,9% do gênero feminino. É relevante pontuar que essa proporção é inversa a encontrada na população brasileira, composta por 48,5% de homens e 51,5% de mulheres [1] . No quadro retratado por nossa amostra há 16% de homens a mais atuando em Relações Governamentais do que mulheres. Gráfico 1 – Profissionais de RIG por gênero Fonte: Pensar Relgov, 2018. A pesquisa “Estatísticas de gênero — Indicadores

Lobby deveria ser regulamentado no País, avalia pesquisadora Andréa Gozetto da Fundação Getúlio Vargas

Andréa Gozetto, da Fundação Getulio Vargas, afirma que a regulamentação da prática  não deve ser vista como 'panaceia'. Entrevista com  Andréa Gozetto , pesquisadora da Fundação Getulio Vargas Thiago Braga - Estadão  BRASÍLIA - Atividade pouco conhecida no Brasil, o   lobby   deveria ser regulamentado, mas, a legislação, sozinha, não representaria uma solução contra desvios. Essa é uma das visões apresentadas pela pesquisadora   Andréa Gozetto , da   Fundação Getulio Vargas , uma das autoras do livro   Lobby e políticas públicas   (FGV Editora), juntamente com o professor Wagner Mancuso, da Universidade de São Paulo (USP). Ao Estado, Andréa diz que a regulamentação não deve ser vista como “panaceia”. A seguir trechos da entrevista. Por que, na sua opinião, o lobby não foi regulamentado? A questão é que não se consegue entrar num consenso sobre as regras que vão normatizar. Pesquisas mostram que 80% do Congresso é a favor da regulamentaç