Pular para o conteúdo principal

Coluna Aberje discute a atividade de relações governamentais

Defesa de interesses e relações governamentais no Brasil contemporâneo Andréa Oliveira Gozetto Em sociedades democráticas, os tomadores de decisão são confrontados e confrontam uma complexa rede de interesses e se valem das ideias e opiniões de diversos segmentos sociais para subsidiar o seu trabalho. Tais segmentos sociais fornecem informações aos decisores, que podem transformá-los em interlocutores, convidando-os a emitir sua percepção sobre o tema em discussão, quando necessário. A atividade de “defesa de interesses realizada junto a membros do poder público que tomam decisões ”, ou seja, o lobby é inerente a sistemas políticos democráticos, estando legitimado por direitos expressos no artigo 5º de nossa Constituição Federal, tais como: “(i) à liberdade de manifestação de pensamento (inciso IV); (ii) à expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação (inciso IX); (iii) à liberdade de reunião (inciso XVI); à liberdade de associação para fins lícitos (inciso XVII); (iv) ao acesso à informação pública de interesse particular, coletivo ou geral (inciso XXXIII); e (v) de petição aos poderes públicos, em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder (inciso XXXIV, alínea a) ” e constituindo-se como fenômeno político marcante no ciclo de políticas públicas. Apesar de presente na vida política norte-americana desde o final do século XIX, a atividade de lobby inicia seu desenvolvimento no Brasil em meados da década de 1970. Porém, apesar de não haver muito espaço para que os segmentos sociais participassem, já que o Congresso foi extremamente enfraquecido e o atendimento de demandas, assim como a formulação de políticas públicas, havia se tornado atribuição do poder Executivo, a mídia passou a chamar de lobby qualquer atitude que apresentasse alguma relação com influência e convencimento, sem se importar com o caráter da representação de interesses . Como o processo de tomada de decisões e as informações que subsidiariam esse processo eram muito centralizados, para influenciá-lo bastava conhecer a figura do “amigo do Rei”. O resultado dessa prática foi a expansão da compra de acessos e resultados. Conhecer ministros influentes ou militares em cargos estratégicos era essencial para o sucesso do lobista. No entanto, todo o processo se desenrolava na clandestinidade e/ou ilegalidade. Devido a essa forma de funcionamento, anteriormente a redemocratização do país, o termo lobby foi utilizado sistematicamente pela imprensa quando se referia à corrupção e/ou tráfico de influência, o que gerou grande desgaste ao termo, criando um estigma de marginalidade que ainda envolve a atividade. Três décadas se passaram e a democracia tem se consolidado no Brasil. Um novo ambiente institucional tem evidenciado que a interface entre Governo, Empresa Privada e Sociedade Civil é importante demais para ser desprezada. Devido a esse fato, o crescente número de profissionais que cotidianamente se utilizam da atividade para representar legitimamente os interesses de suas organizações passou a utilizar outra nomenclatura em uma tentativa de arrefecer o estigma. Termos como relações institucionais, relações governamentais e advocacy tornaram-se comuns e foram paulatinamente substituindo o tão desgastado termo lobby. A estratégia apresentou bons resultados, pois é impossível negar que a área de relações governamentais tem apresentado forte tendência de crescimento . Esse novo cenário gera a demanda por profissionais altamente qualificados e bem treinados que tenham capacidade para dissecar um problema, analisar cenários econômicos e políticos, interpretar dados, avaliá-los e criar cursos alternativos de ação. O profissional de relações governamentais realiza um importante trabalho para as organizações que pretendem conquistar ou manter posições de liderança em seus setores, pois atualiza suas organizações sobre o trabalho do governo; fornece ao governo informações sobre o trabalho da organização que representa; analisa riscos e identifica oportunidades e faz a prospecção de tendências e cenários futuros. O trabalho desses profissionais fortalece e legitima a imprescindível relação entre Governo, Empresa Privada e Sociedade Civil, contribuindo para a construção de um processo decisório mais plural e transparente. Publicado em: http://www.aberje.com.br/acervo_colunas_ver.asp?ID_COLUNA=1354&ID_COLUNISTA=120

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CENÁRIO É FAVORÁVEL À REGULAMENTAÇÃO DO LOBBY, DIZEM ESPECIALISTAS E PROFISSIONAIS

BROADCAST ESTADÃO

26/11/2018 10:23:13 - POLÍTICO ESPECIAL:

CENÁRIO É FAVORÁVEL À REGULAMENTAÇÃO DO LOBBY, DIZEM ESPECIALISTAS E PROFISSIONAIS

São Paulo, 26/11/2018 - O governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) pode favorecer a regulamentação do lobby no Brasil, avaliaram especialistas e profissionais que atuam nesse setor. O assunto está em discussão no Congresso há décadas, mas projetos que procurem determinar regras claras para a representação de interesses privados junto ao poder público até hoje custam a avançar no Legislativo. O presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), Guilherme Cunha Costa, afirma que integrantes do futuro governo Bolsonaro têm dado sinais favoráveis ao andamento dessa pauta no Congresso. "O agora ministro Sérgio Moro, logo na posse, deu uma sinalização forte de regulamentação e de como deve se dar o diálogo entre o público e o privado. Isso é muito importante, não só para nós, mas para toda a sociedad…

Gênero e Relações Governamentais

Gênero e Relações Governamentais Andréa Gozetto (FGV/IDE) Manoel Santos (UFMG) Eduardo Galvão (Pensar RelGov) Bruno Pinheiro (UFMG)

Em 2018, a Pensar RelGov atualizou os dados da pesquisa “O Perfil do Profissional de Relações Governamentais”, realizada em 2015. Para essa atualização, foram entrevistados 265 profissionais da área. Os resultados obtidos nos permitem analisar diversas questões, entre elas: gênero, nível hierárquico, grau de instrução e remuneração dos indivíduos entrevistados.Nossa amostra é composta por 58,1% de profissionais do gênero masculino e 41,9% do gênero feminino. É relevante pontuar que essa proporção é inversa a encontrada na população brasileira, composta por 48,5% de homens e 51,5% de mulheres[1]. No quadro retratado por nossa amostra há 16% de homens a mais atuando em Relações Governamentais do que mulheres.Gráfico 1 – Profissionais de RIG por gênero Fonte: Pensar Relgov, 2018.A pesquisa “Estatísticas de gênero — Indicadores sociais das mulheres no Brasil"…

PERFIL DO PROFISSIONAL: FABÍOLA NADER MOTTA

“Trabalho perene, contínuo, no qual você não escolhe candidatos, partidos, lados. Muita transparência, ética e compliance” Conversar com alguém que está radicado em Brasília é sempre um exercício de adivinhação. A cada frase, desponta uma mistura de sotaques típica da capital federal. Com Fabíola Nader Motta, gerente de relações institucionais da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), não é diferente. A cada frase, a cada cadência, o interlocutor aposta em uma região do Brasil. Mas o que aparenta é um leve acento mineiro. Fabíola, filha de militar que serviu em várias partes do País, nasceu em Juiz de Fora (MG) e se mudou muito jovem para Brasília. Pelo histórico familiar e pela profissão que escolheu, ela é, aos 31 anos, uma típica brasiliense. Outro aspecto da fala também não passa despercebido. As frases redondas, repletas de dados, resumem outra característica – desta vez, profissional. O poder de articulação e convencimento demonstra o preparo para exercer a atividade q…