Pular para o conteúdo principal

Manifestações de 2013 e a crise de representatividade

Por: José Hamilton da Cruz Jr. pós-graduando em Administração Pública (Senac-SP) Perplexidade. Este é um sentimento que, certamente, foi vivido por milhões de pessoas que puderam ver, pelas televisões, multidões caminhando fellinianamente pelas principais avenidas do país. Sem que seja necessário precisar números, o fato é que, não muitos meses antes do emblemático mês de junho do ano de 2013, os índices de avaliação do governo federal e de vários governos estaduais, entre eles o de São Paulo, estavam em níveis confortáveis de aprovação. O que fez mudar tão radicalmente e rapidamente esta percepção? Apenas o aumento de centavos nas passagens dos transportes públicos? Certamente, não. Que há uma aguda crise de representação política, não apenas no Brasil, há, mas que, aparentemente, não estava convalidada pelos indicadores de opinião proximamente anteriores aos episódios acontecidos. Nesta breve análise - e para não correr ainda mais o risco de ser inconclusivo -, irei focar um fenômeno muito recente: a interconectividade em uma sociedade de comunicação de massas e o novo protagonismo do indivíduo em rede. Voltando ao icônico cineasta italiano, caminhando entre os manifestantes, na avenida Paulista, em algumas noites daquele mês de junho, senti-me participando de uma película surrealista de Federico. De um lado, um grupo de ativistas contra a cura gay, proposta pelo pastor/deputado(?) Feliciano. De outro, indignados contra o socialismo bolivariano infiltrado no país. Em várias das diagonais possíveis, brados contra a corrupção. Em outras, braços erguidos contra a precariedade do sistema público de saúde. Num outro ponto, aposentados indignados com seus parcos rendimentos. E não poderiam faltar, por óbvio, os que protestavam contra o aumento dos coletivos, estopim da crise. Embora muitos, aparentemente, tivessem vindo em seus próprios carros. Bem como, inclua-se, aqueles que pregavam pela extinção de todos partidos políticos, numa indicação clara da crise de representação, mas, também, da falta de rumos dos indignados. Enfim, um somatório fervilhante de vontades e opiniões individuais, num caldeirão de diversidade social e humana, que poderia ser o prenúncio de uma celebração ecumênica ou do caos, com uma infinidade de luzes dos celulares dos manifestantes dando mostras deste fascinante mundo tecnológico de indivíduos planetariamente conectados em rede. Aparelhos estes que podem, a qualquer hora e em qualquer lugar, proporcionar a livre manifestação formal de milhões de pessoas, simultaneamente, expressando suas opiniões sobre os mais diversos temas. Não apenas relativos à pauta política em voga, mas, também, sobre a importância das leguminosas em uma alimentação saudável, chegando até a influência do pensamento cristão ortodoxo nas relações sociais entre as comunidades ao norte da Sibéria. Verificando-se, de tal maneira, um aumento crescente de um contingente de seres humanos assertivos, confiantes, cheios de auto-suficiência, relacionando-se sem a mediação da presença física e, muitas vezes, fundando opiniões em bases frágeis, a ponto de, com frequência, não respeitarem a própria realidade factual e objetiva. Como resultado desta ebulição informativa e opinativa, retrocessos civilizatórios e de costumes tem sido observados. Com os indivíduos, isolados em rede, colocando em movimento um ciclo civilizatório em marcha ré, no qual preponderam o radicalismo exibicionista, a intolerância hedonista, a superficialidade, quando não a ofensa pura e simples. Coloque-se, agora, este contexto dentro de outro contexto. Que é o da tensão política permanente entre ideologias dissonantes, gerando uma disputa diuturna por corações e mentes, empreendida pelo mainstream econômico e político - e por seus supostos opositores -, ancorada numa mídia corporativa que se julga acima do bem e do mal. E que não admite receber críticas articuladas, sem se vitimizar e acusar tentativas de amordaçamento. Pois bem, é neste contexto abrangente que as panelas de pressão sociais das grandes metrópoles brasileiras explodiram no mês de junho de 2013, enquanto as populações das franjas urbanas, das zonas rurais e de médios e pequenos municípios assistiam a tudo com um misto de incredulidade, incompreensão e espanto. O Movimento Passe Livre, na cidade de São Paulo, naquela época, deu início às manifestações e seus próprios líderes não poderiam imaginar, nem em delírios, como as coisas evoluiriam cinematograficamente. Não se pode deixar de reiterar, admitamos, que as forças representantes do pensamento liberal conservador que domina o país seguiam e seguem, em parceria com o cartel midiático, pregando contra a ameaça de esquerda - com suas políticas consideradas assistencialistas, desestimulantes ao trabalho e ameaçadoras à propriedade – e a favor da moralidade, da liberdade e da família. Mesmo que muitos integrantes destes grupos não hesitem em se favorecer do dinheiro público – por dentro ou por fora da lei – e tenham condutas privadas em desacordo com o que pregam. Tudo em linha com a histórica e tradicional hipocrisia latina. De modo que, enquanto a economia brasileira vinha num crescente, embalada pela expansão chinesa e pelas bolhas especulativas, o poder federal em mãos do Partido dos Trabalhadores, no âmbito de um presidencialismo de coalizão, seguia aceito e tolerado pela maioria dos setores socialmente organizados, não sem permanecerem intactos os núcleos duros de oposição. Ocorre, entretanto, que a crise econômica e financeira de 2008, que abalou os centros do capitalismo mundial, promoveria uma radical alteração de cenários que, fatalmente, iria repercutir sobre os poderes políticos. No Brasil, especificamente, a adoção imediata de políticas anticíclicas conteve a crise - logo comparada a um verdadeiro tsunami – e o PIB brasileiro do ano eleitoral de 2010 avançou mais de 7%. Ano que marcou o início da presença mais intensa e efetiva das redes no jogo político e que foi palco de uma campanha eleitoral extremamente agressiva, com direito a uma avalanche de factoides, insultos e difamações, travestida de “debate”. E que não poderia ter terminado de forma mais coerente e melancólica, com o candidato a presidente da oposição adentrando nas casas dos eleitores com a Bíblia em mãos, a demonstrar sua devoção e sua fé. Pois bem, já em 2013, não obstante os índices favoráveis de avaliação dos governos em geral, observados no início daquele ano, a economia já dava sinais de que estava entrando em rota de desaceleração, dada, entre outras razões, pela impossibilidade de sustentar consumo e investimentos com o nível estratosférico dos juros praticados no país. E 2014 estava ali batendo às portas, com uma candidata presidencial à reeleição que já não poderia usufruir dos aspectos positivos dos personagens pouco conhecidos, sem sofrer os desgates naturais do cargo. E com uma Copa do Mundo no Brasil se aproximando, permanecendo a crença de que se a seleção brasileira de futebol vai bem, a situação amplia suas chances de vitória, mais ainda se o triunfo se der em gramados pátrios. Faço um parêntese aqui para declarar o meu apreço pelo esporte bretão -muito prejudicado por tenebrosas transações- e, também, por competições internacionais, especialmente a maior delas. E que foi bombardeada por uma imprensa decidida, como sempre, a influenciar os resultados eleitorais. De forma que, num país acostumado à auto-sabotagem, o que se viu foram ataques sistemáticos ao evento. A ponto de dar náuseas a exploração midiática da morte de um operário nas obras do estádio de abertura, quando – supõe-se que a imprensa nativa saiba – oficialmente morrem no país, todos os anos, um número aproximado de quinhentos operários da construção civil, sem que se veja indignação nas expressões dos âncoras dos telejornais. Por fim, como há também os episódios substancialmente apenas ridículos, um jornal paulista de grande circulação em queda deu manchete informando que havia uma torneira pingando num dos banheiros do Itaquerão. Pois bem, os ingredientes estavam todos ali refogando: uma economia em trajetória de queda, já incapaz de nublar os conflitos distributivos de renda; o poder do capital tentando convencer as populações que a maior crise do capitalismo, desde 1929, era culpa dos governos pouco austeros e gastadores e a imprensa e as redes repetindo os mantras do liberalismo, da concorrência e da meritocracia, todos falsos, enquanto os governos seguirem intervindo em favor do capital, protegendo os cartéis e não oferecendo igualdades de oportunidades. Ou seja, enquanto prevalecer, na realidade, um sistema plutocrático, oligopolista e excludente. E, então, com milhares de clics confirmando presença, como já nos ultrapassados flash mobs, formaram-se multidões nas metrópoles brasileiras. Massas humanas capazes de dar calafrios nos mais experientes governantes. Mas que se diluíram com a mesma rapidez com que se formaram. O saldo dos eventos juninos de 2013 está para melhor ser avaliado, com o devido distanciamento histórico, mas fica a pergunta: onde estará a jovem que viralizou na internet segurando um cartaz onde se lia “desculpem o transtorno, estamos mudando o país”? É possível afirmar que a população se sente pouco representada pelos governantes e pelos legisladores, conforme também indicam as frequentes pesquisas feitas por institutos de opinião e que são divulgadas pela imprensa. Sim, as manifestações de junho de 2013 refletem esta crise de representatividade, mas constituem um dos fatores, entre outros, conforme quis se demonstrar nesta breve análise. Como superar esta crise da democracia representativa é a pergunta que vale uma fortuna, já que não é possível ao representante atender a vontades individuais conflitantes, mesmo dentro de um mesmo espectro ideológico. E por ser a formação da vontade geral mais uma formulação teórica e abstrata do que uma possibilidade real. Entretanto, caso a população caminhe no sentido de ocupar os espaços públicos das discussões políticas, um passo essencial teria sido dado na recuperação e na legitimação da representação política.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quais habilidades o profissional de relações governamentais deve aprimorar para melhorar a sua performance?

Katz[1], classifica as habilidades necessárias a um profissional de gestão em três grupos principais: habilidade técnica, humana e conceitual. Essa tipologia nos será útil para entender quais desses grupos de habilidades são mais importantes para profissionais que, como você, exercem a atividade de relações governamentais. Vamos iniciar pelas habilidades técnicas, o grupo menos complexo, segundo Katz. Apesar de essenciais, as habilidades técnicas são menos complexas, pois podem ser desenvolvidas mais facilmente, bastando ao profissional adquirir conhecimentos, métodos e aprender a utilizar os equipamentos necessários para a realização de suas tarefas. Obter ou aprimorar conhecimentos sobre políticas públicas setoriais, processo decisório, processo legislativo, negociação e argumentação são um grande diferencial para esse profissional. Porém, caso haja alguma lacuna a ser preenchida, um bom workshop, curso de extensão ou pós-graduação lato sensu pode auxiliar o profissional a desenvolve…

Evento discute engajamento e mobilização para advocacy via redes sociais na FGV/EAESP

Maiores informações e inscrições:http://gvredes.com.br/evento/mobilizacao-e-engajamento-para-advocacy-via-redes-sociais/