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RelGov Veste Prada: uma rede que contribui para o aprofundamento da democracia

Em março de 2006, a Revista UM (Universo Masculino) publicou uma matéria em que apresentava a história de três mulheres que atuavam na área de relações governamentais. A partir de uma abordagem inovadora, o jornalista conseguiu desmistificar um pouco a zona cinzenta que envolve a atividade de lobby e ao relatar o dia a dia de suas fontes, apresentou a complexidade do trabalho dessas profissionais. Intitulada “O lobby de saias” (*1), a matéria tentava apreender possíveis dificuldades que uma mulher enfrentaria ao defender os interesses da organização que representa no Congresso Nacional. Para evitar envolvimentos em esquemas de corrupção e tráfico de influência e ameaças de assédio sexual, essas profissionais formaram uma rede de informações que, entre outros objetivos, servia como um alerta acerca de pessoas ou atos suspeitos.
A existência de esquemas de corrupção e tráfico de influência ainda constituem desafios a superar. Mas é muito bom saber que, em menos de uma década, outras redes de informação têm sido criadas por mulheres que atuam na área de relações governamentais. Felizmente, por motivos bem diferentes.
É o caso do grupo RGVP – RelGov Veste Prada – ou simplesmente As Pradas, como referem-se entre elas às participantes do grupo. Fruto dos encontros informais de algumas amigas que se reuniam para trocar experiências, o RGVP foi crescendo e transformou-se em uma rede. Há algumas exigências para tornar-se uma Prada, entre elas: a) ser mulher; b) atuar na área de relações governamentais, c) ser colaboradora de Empresas, Consultorias, Confederações, Federações, Associações de Classe e think tanks e d) estar em Brasília com frequência (2 ou 3 vezes por mês). Os encontros mensais acontecem sempre na terceira semana, em Brasília e alternam-se entre uma reunião de trabalho (preferencialmente um café da manhã) e um Happy Hour. Atualmente, o grupo conta com mais 60 mulheres, mas há outras 10 solicitando inclusão. Apesar de não possuírem um alto grau de formalização, a sua carta de 
apresentação define regras para inclusão de novos membros, normas de conduta e de confidencialidade das informações do grupo.
O RGVP atua com base em três pilares: networking; leadership, mentoring e coaching e trabalho social voluntário. O seu objetivo é tornar cada um dos membros um radar e assim ampliar a capacidade de captação e disseminação de informações. Como se sabe, a antecipação é essencial à área de relações governamentais. Um bom profissional é aquele que é capaz de identificar oportunidades e riscos para a organização que representa antes que outros o façam. Afinal, a informação é vital para o processo de defesa de interesses. É por isso que as Pradas interagem entre si por meio de um grupo no Whatsapp, possuem um grupo de discussões no Linkedin (*2) e trocam  informações por e-mail.
A pluralidade é a marca do grupo. Profissionais em diferentes níveis hierárquicos se relacionam de igual para igual e trocam experiências. Em um país em que os direitos civis mais básicos, como o direito à igualdade, ainda não estão plenamente consolidados, a existência do RGVP é um ganho substancial para o aprofundamento da democracia.

(*1) LAMBRANHO, Lúcio. O Lobby de Saias. In: Revista UM. Edição 17, março de 2006.
(*2) https://www.linkedin.com/grps/RelGov-Veste-Prada-6953871/about?http://aberje.com.br/acervo_colunas_ver.asp?ID_COLUNA=1604&ID_COLUNISTA=120

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