Pular para o conteúdo principal

Ironia

Andréa C. Oliveira Gozetto O objetivo principal de uma organização que utiliza a atividade de lobby é influenciar o curso das políticas públicas a seu favor. Seria natural, portanto que os cientistas políticos estudassem como os lobistas obtêm influência. Apesar de diversos fenômenos associados ao lobby – formação, organização, acesso e atividade dos grupos de interesse – terem sido estudados exaustivamente, ironicamente os especialistas se calam quando o tema é influência (Mahoney, 2007). Essa ironia decorre da dificuldade em operacionalizar tal conceito. De maneira geral, influência pode ser definida como o poder de moldar a política ou garantir tratamento favorável para alguém, especialmente por meio de status, contatos ou riqueza. É influente aquele que tem a capacidade de mudar o comportamento, crença ou opinião de outro ou de modificar a prioridade dos temas da agenda pública. Na Ciência Política, tradicionalmente, o termo tem sido utilizado como sinônimo de poder político. A abordagem reputacional, por exemplo, infere que as bases do poder se traduzem em influência. Isso significa que, ao identificar quem possui os recursos para exercer influência, assume-se automaticamente que esse a possua. No entanto, é necessário refletir, em que medida recursos realmente se traduzem em influência. Em outras palavras, seria possível mensurar como o dinheiro se transforma em poder? (Lowery, 2015) Mas os obstáculos persistem. Como identificar com precisão os verdadeiros objetivos dos grupos de interesse e cada possível fator gerador de influência? (Mahoney, 2007) Como definir de maneira precisa como a influência se evidencia? Especula-se que, talvez, os especialistas estejam procurando as evidências de influência no lugar errado. (Lowery, 2015) Para aqueles que precisam mensurar os resultados de suas ações de lobby, essa não é uma discussão abstrata. Muitas vezes, a manutenção ou o fortalecimento da área de relações governamentais de uma organização são determinados pela capacidade dos profissionais que nela atuam de comprovar os seus resultados e traduzi-los em números. Diferentemente do mundo corporativo, onde as decisões são baseadas em certezas, uma vez que os papéis, metas e preços estão bem definidos, o mundo do lobby é governado pela incerteza de objetivos e significados (Lowery, 2015). Sendo assim, o grande desafio para especialistas e profissionais de relações governamentais é tornar o que é substancialmente significativo em termos de influência em algo observável e mensurável. Referências Bibliográficas LOWERY, D. Lobbying influence: meaning, measurement and missing. Interest Groups and advocacy. Vol. 2, 1, 1-26. MAHONEY, C. Lobbying Success in the United States and the European Union. Journal of Public Policy, Volume 27, Issue 01, May 2007, pp 35-56.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quem são e como atuam os lobistas de Brasília

Lobby às claras 20.06.2005 Quem são e como atuam os lobistas de Brasília que defendem os interesses das empresas e querem legalizar a atividade Por Gustavo Paul EXAME Estabelecer uma estratégia de atuação em Brasília é um grande desafio para as empresas brasileiras. De um lado, está a burocracia com suas exigências idiossincráticas e a vocação natural para transformar qualquer ação em letargia. De outro, o fantasma da corrupção que permeia a cidade e, especialmente nos últimos tempos, pode fazer supor que essa é a única forma de se relacionar com autoridades públicas ou personagens da capital federal. Apesar desse cenário pouco favorável, existem caminhos absolutamente legítimos para uma empresa defender pontos de vista ou interesses dentro da máquina pública federal. E, justamente por causa de escândalos como o dos Correios, um tipo diferente de lobista vem ganhando terreno no cenário brasiliense. Esses escritórios de lobby, grandes e pequenos, dedicam-se a fazer de forma absolutam

Lobby deveria ser regulamentado no País, avalia pesquisadora Andréa Gozetto da Fundação Getúlio Vargas

Andréa Gozetto, da Fundação Getulio Vargas, afirma que a regulamentação da prática  não deve ser vista como 'panaceia'. Entrevista com  Andréa Gozetto , pesquisadora da Fundação Getulio Vargas Thiago Braga - Estadão  BRASÍLIA - Atividade pouco conhecida no Brasil, o   lobby   deveria ser regulamentado, mas, a legislação, sozinha, não representaria uma solução contra desvios. Essa é uma das visões apresentadas pela pesquisadora   Andréa Gozetto , da   Fundação Getulio Vargas , uma das autoras do livro   Lobby e políticas públicas   (FGV Editora), juntamente com o professor Wagner Mancuso, da Universidade de São Paulo (USP). Ao Estado, Andréa diz que a regulamentação não deve ser vista como “panaceia”. A seguir trechos da entrevista. Por que, na sua opinião, o lobby não foi regulamentado? A questão é que não se consegue entrar num consenso sobre as regras que vão normatizar. Pesquisas mostram que 80% do Congresso é a favor da regulamentaç

Gênero e Relações Governamentais

Gênero e Relações Governamentais Andréa Gozetto (FGV/IDE) Manoel Santos (UFMG) Eduardo Galvão (Pensar RelGov) Bruno Pinheiro (UFMG) Em 2018, a Pensar RelGov atualizou os dados da pesquisa “ O Perfil do Profissional de Relações Governamentais ”, realizada em 2015. Para essa atualização, foram entrevistados 265 profissionais da área. Os resultados obtidos nos permitem analisar diversas questões, entre elas: gênero, nível hierárquico, grau de instrução e remuneração dos indivíduos entrevistados. Nossa amostra é composta por 58,1% de profissionais do gênero masculino e 41,9% do gênero feminino. É relevante pontuar que essa proporção é inversa a encontrada na população brasileira, composta por 48,5% de homens e 51,5% de mulheres [1] . No quadro retratado por nossa amostra há 16% de homens a mais atuando em Relações Governamentais do que mulheres. Gráfico 1 – Profissionais de RIG por gênero Fonte: Pensar Relgov, 2018. A pesquisa “Estatísticas de gênero — Indicadores