Pular para o conteúdo principal

Honestidade, integridade e credibilidade

Às Claras - Jota Por Andréa Oliveira Gozetto Cientista Política, pós-doutora em Administração Pública, é coordenadora acadêmica do MBA em Economia e Gestão - Relações Governamentais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Em 2006, Connor MacGrath publicou um interessante artigo intitulado “The ideal lobbyist[1]”. Nesse artigo, ele apresentou os resultados de uma pesquisa que havia realizado com 60 profissionais de relações governamentais que operavam em Washington, Londres e Bruxelas. Seu objetivo foi apreender quais eram as mais importantes características pessoais que um profissional de relações governamentais deveria possuir para ter sucesso em seu trabalho. A partir da análise dos relatos obtidos, ele identificou 6 características fundamentais, a saber: (1) capacidade de ouvir atentamente; (2) capacidade de observação; (3) cortesia; (4) capacidade de relacionar-se; (5) honestidade e (6) integridade e credibilidade. Apesar de todas elas serem essenciais, o autor ressalta que o sucesso de um profissional nessa área é consequência direta de sua reputação. A reputação, por sua vez, é construída pela conjunção das duas últimas características, ou seja, honestidade, integridade e credibilidade. Até aqui, não há nenhuma novidade, haja vista que todo profissional que esteja construindo uma carreira de sucesso precisa desenvolver essas características pessoais. Mas, levando-se em consideração que as ferramentas básicas utilizadas por esse profissional em seu cotidiano são a informação e a comunicação, há algumas peculiaridades. Honestidade e credibilidade estão intrinsicamente relacionadas com a maneira como a informação é tratada. Sua honestidade pode ser completamente arruinada, caso o profissional de relações governamentais leve ao tomador de decisão que está tentando influenciar, informações imprecisas e parciais, sem apresentar os pros e contras de seu ponto de vista ou menosprezando os argumentos dos grupos de interesse rivais. A credibilidade, por sua vez, depende da habilidade do profissional em ser reconhecido como um indivíduo bem informado e consistente. Quanto à integridade, ela permanecerá intacta se não houver denúncias de desrespeito aos códigos de ética/conduta de sua profissão e/ou do ordenamento jurídico vigente. O IRelGov (Instituto de Relações Governamentais) realizou, em parceria com a Fundamento RP, a primeira pesquisa de opinião acerca da reputação dos profissionais de relações governamentais. Foram entrevistados 71 CEOs, vice-presidentes e diretores, a maioria deles atuando nas áreas de comunicação, jurídico e compliance e em grandes empresas. Em se tratando de uma área que sempre esteve envolvida por um forte estigma de marginalidade, os resultados foram bastante positivos. 80% dos entrevistados acreditam que a atividade é legítima e 57% afirmam que a reputação da área está mudando para melhor. Um dado extremamente relevante diz respeito a crença dos executivos de que o relacionamento entre as empresas e o governo possa ser transparente. Isso porque a concretização desse ideal é essencial para o aprofundamento da democracia no Brasil. Outro fato relevante refere-se ao grau de conhecimento que os executivos entrevistados demonstraram possuir sobre a área. Quanto às atribuições de um profissional de relações governamentais, 70% afirmaram que esse profissional é responsável pela proposição, influência e contribuição com políticas públicas, 64% apontaram que sua função é evitar ou minimizar riscos para a imagem da empresa e 56% indicaram que a atuação desse profissional é importante para melhorar o ambiente de negócios onde a empresa atua. Apenas um pequeno número de executivos (7%) afirmou que o profissional de relações governamentais é capaz de aumentar as vendas para o governo. Os adjetivos utilizados por esses executivos para designar os profissionais em questão, nos mostram também como houve avanços. Diferentemente da imagem estereotipada que circula acerca desses profissionais – que os mostra como indivíduos que buscam vantagens indevidas junto ao poder público, atuando de “forma obscura e dissimulada, procurando acesso privilegiado aos tomadores de decisão, sempre disposto a entrar em negociatas com agentes públicos capazes de ajudá-lo na obtenção de seus objetivos[2]” –, os executivos ouvidos pela pesquisa caracterizaram os profissionais de relações governamentais como: estrategista (58%), protetor (58%) e facilitador (44%). Ainda que os executivos tenham demonstrado compreender a real função e atuação dos profissionais de relações governamentais, 75% deles afirmou que a atividade não é bem vista pela opinião pública. Espera-se que essa mudança de perspectiva observada no ambiente corporativo possa contaminar a opinião pública. Afinal, a legitimidade pública desses profissionais só será alcançada com um maior grau de profissionalização da atividade. Para que isso aconteça, há um longo caminho a percorrer. É necessário que o sistema político ganhe mais transparência e capacidade de responsabilização (prestação de contas), que as associações profissionais se fortaleçam e, sobretudo que os próprios profissionais se comprometam a esclarecer a opinião pública sobre sua função, atribuição e forma de atuação. [1] McGrath, Conor. The ideal lobbyist. Personal characteristics of effective lobbyists. Journal fo Communication Management. Vol. 1, nº 1, 2006. Pp-67-79 [2] Mancuso, W. P. & Gozetto, A. C. O. Lobby: instrumento democrático de representação de interesses? Organicom (USP), v.14, p.118 – 128, 2011. http://jota.uol.com.br/claras-honestidade-integridade-e-credibilidade

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Matéria veiculada pelo Jornal da Cultura discute o reconhecimento da ocupação do profissional de relações institucionais e governamentais pelo Ministério do Trabalho

O Jornal da Cultura veiculou ontem a noite uma excelente matéria sobre o reconhecimento da ocupação de relações institucionais e governamentais. Os alunos do MBA em Relações Governamentais da FGV em São Paulo marcaram presença. 

Importante ressaltar que o profissional de relações institucionais e governamentais não é um vendedor. Esse profissional leva informações ao governo sobre a organização que representa e traz para a organização informações relevantes sobre o processo decisório estatal. Portanto, propagandistas da indústria farmacêutica não são profissionais de relações governamentais. 

Após a matéria, o Prof. Villa esclareceu o público sobre a importância da atividade de lobby e a necessidade de regulamentação. 

Confiram a íntegra da matéria: http://www.info4.com.br/ver/ver.asp?bA=MTE3NTA5NQ&YQ=MTQzMg&Yw=NDA0MQ&b3JpZ2Vt=ZW1haWw=&ZGF0YQ=MjcvMDIvMjAxOA

Consulta pública sobre projeto para regulamentação do lobby (FGV e Transparência Internacional)

O projeto de lei que pretende regulamentar o lobby no Brasil deverá ser apreciado até o final de março!
É importante que todos participem dessa discussão. Por isso, divulgo um trabalho sensacional realizado pelo Centro de Justiça e Sociedade (FGV Direito Rio) e o Grupo de Estudos Anticorrupção (FGV Direito SP), em parceria com a Transparência Internacional - Programa Brasil. Juntos, elesdesenvolveram um conjunto de medidas normativas anticorrupção.
Eu fui uma das especialistas convidadas para elaborar minutas de proposições legislativas sobre a regulamentação do lobby. A minuta que elaborei foi submetidas a um processo de revisão por outros especialistas (blind peer review) e, agora, encontra-se em consulta pública. Cidadãos e organizações da sociedade civil poderão apresentar críticas e sugestões às proposições elaboradas.
Participe!

LOBBY INTERNACIONAL

Reportagem publicada no jornal inglês The Guardian no último domingo aponta que o ministro de comércio britânico teria feito lobby junto ao secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia do Brasil, Paulo Pedrosa, em favor das empresas BP, Shell e Premier Oil. A notícia veio à tona porque a ONG Greenpeace teve acesso a documentos oficiais do governo britânico, que agora está sendo acusado de agir para isentar impostos e flexibilizar licenças ambientais para a indústria de petróleo. Vale lembrar que Paulo Pedrosa é o grande articulador de projetos como a privatização da Eletrobras e ligado a grupos econômicos e fundos de investimentos que podem ser beneficiados com esses negócios (ler mais aqui). Em resposta à grave notícia, na última quarta-feira congressistas da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional -- Roberto Requião (PMDB-PR), Gleisi Hoffman (PT-PR), Humberto Costa (PT-PE) e Lindbergh Farias (PT-RJ), entre outros -- apresentaram uma denúncia à Procuradoria …