Pular para o conteúdo principal

É preciso definir advocacy

Muito se tem falado sobre advocacy. No entanto, trata-se de um conceito em disputa e, por isso, resolvi sistematizar o que venho pensando sobre isso.
Do meu ponto de vista, advocacy é uma forma não eleitoral de representaçãopolítica e, portanto, auto autorizada. Sua legitimidade é garantida pela afinidade ou identificação de um conjunto de indivíduos ou pela capacidade que as organizações que a utilizam possuem de expressarem uma constelação de discursos públicos.
Até aqui, há duas peculiaridades a ressaltar. Em primeiro lugar, estamos falando de auto autorização. Isso quer dizer que diferentemente da representação eleitoral, nesse caso é o representante quem escolhe o representado. Vejamos o caso do Greenpeace, por exemplo. Essa organização, super atuante escolheu o planeta Terra para representar, mas o planeta Terra não o escolheu, certo?
Em segundo lugar, devemos entender melhor o que, onde e quem se representa com o advocacy. O que se representa são ideias, temas, discursos ou, como se convencionou dizer, causas. Essas causas são representadas na esfera pública, a arena política por excelência para a defesa de causas. Mas, de quem são as causas representadas? Há uma conexão entre o que e quem se representa, já que o que se presenta na esfera pública é um discurso sobre direitos ou temas e não um conjunto específico de pessoas.
Acredito que essa forma não eleitoral de representação política é uma resposta à atual crise de representatividade caracterizada pela distância entre representante e representado, pela dificuldade que os mecanismos de representação eleitoral possuem para captação da vontade da maioria, para além da simples agregação de votos e pelo controle muito restrito do representado sobre as decisões tomadas por seus representantes.
Entendo o advocacy como uma alternativa à representação eleitoral, mas que não a coloca em questão, uma vez que se defendem ideias e temas, de maneira que possam ser incorporados pelas instituições políticas tradicionais.
advocacy pode contribuir para extinguir a dicotomia entre Estado como representante e sociedade civil como representada, uma vez que, há um processo de colaboração intrínseco a essa estratégia.
Pode contribuir também para flexibilizar a noção de legitimidade que até o momento só é possível através do voto. Afinal, apesar de todos terem direito ao voto, independentemente de gênero, cor ou renda, não tem garantido que demandas legítimas da sociedade civil sejam levadas em consideração pelos representantes.
No entanto, a tarefa de construir um conceito rigoroso não é fácil, já que o que se busca é captar a especificidade do termo.
Motivada pelo espírito de colaboração que o advocacy instiga, elaborei o conceito abaixo e gostaria de receber contribuições para aprimorá-lo:
“Advocacy é um tipo de ação política realizada tipicamente por organizações da sociedade civil independentemente de mandato político e dirigida aos tomadores de decisão com o objetivo de influenciá-los a considerar demandas legítimas e relevantes da sociedade civil acerca de políticas públicas em curso, em elaboração ou em implementação”.
Para obter resultados, o advocacy precisa ser realizado a partir de um plano de ação organizado e planejado com o objetivo de levar informações ao tomador de decisão. No entanto, como não possuem mandato, as organizações da sociedade civil engajam e mobilizam outros atores sociais e os incentivam a encaminhar essa informação aos tomadores de decisão. Com isso, essas organizações garantem, ao mesmo tempo, visibilidade para a causa que defendem e legitimidade como representantes dessa causa junto aos tomadores de decisão.  
Através do advocacy, organizações que não possuem acesso à mesa de negociação, forçam sua entrada no processo decisório estatal conscientizando a opinião pública sobre importantes causas a serem defendidas, engajando atores relevantes na discussão, que pressionam os tomadores de decisão em prol da defesa de determinado tema ou política.
Em um momento de inflexão, como o que estamos passando, nunca foi tão necessário que a sociedade civil se organize em torno de causas e pressione os governantes a ouvir suas demandas. 
Use os comentários para contribuir para o aprimoramento desse conceito!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quais habilidades o profissional de relações governamentais deve aprimorar para melhorar a sua performance?

Katz[1], classifica as habilidades necessárias a um profissional de gestão em três grupos principais: habilidade técnica, humana e conceitual. Essa tipologia nos será útil para entender quais desses grupos de habilidades são mais importantes para profissionais que, como você, exercem a atividade de relações governamentais. Vamos iniciar pelas habilidades técnicas, o grupo menos complexo, segundo Katz. Apesar de essenciais, as habilidades técnicas são menos complexas, pois podem ser desenvolvidas mais facilmente, bastando ao profissional adquirir conhecimentos, métodos e aprender a utilizar os equipamentos necessários para a realização de suas tarefas. Obter ou aprimorar conhecimentos sobre políticas públicas setoriais, processo decisório, processo legislativo, negociação e argumentação são um grande diferencial para esse profissional. Porém, caso haja alguma lacuna a ser preenchida, um bom workshop, curso de extensão ou pós-graduação lato sensu pode auxiliar o profissional a desenvolve…

Como aumentar a sua capacidade de persuasão?

Oi! Tudo bem?
Semana passada, enfocamos o grupo de habilidades conceituais, pois ao desenvolver essas habilidades o profissional aprimora sua capacidade prospectiva, analítica e estratégica ao aprender a pensar de forma criativa e inovadora e, ao mesmo tempo compreender ideias abstratas e processos complicados.
Porém, para persuadir e influenciar os tomadores de decisão não basta possuir um rol de habilidades técnicas e conceituais bem desenvolvido. O grupo de habilidades humana é essencial para que o profissional de relações governamentais alcance o seu objetivo: influenciar. Para influenciar é preciso persuadir. Assim, qual seria o melhor caminho para aumentar a capacidade de persuasão?
Primeiramente, é preciso destruir um mito que já se encontra enraizado em nossas mentes. É comum ouvir pessoas dizendo que algumas habilidades, como por exemplo, comunicação, expressão e observação são inatas. Portanto, se você não consegue se comunicar com outros de maneira assertiva, jamais poderá apr…

Qual habilidade desenvolver para alcançar seus objetivos?

Como você bem sabe, o profissional de relações governamentais é o agente responsável por construir um relacionamento sólido e duradouro entre a organização que representa e o governo.
Aqueles que atuam na área, como você, reconhecem que o estabelecimento desse relacionamento é muito positivo, tanto para os tomadores de decisão quanto para os grupos de interesse. Reconhecem também que os grupos de interesse colaboram para com o processo decisório estatal ao levar aos tomadores de decisão informações que eles nem sempre possuem, o que os capacitam a tomar decisões mais equilibradas acerca de importantes questões que impactam a sociedade civil e o mercado.
Mas, você já parou para pensar sobre quais são as habilidades mais importantes para o exercício da sua atividade? O que garante que o tomador de decisão leve em consideração a informação que você fornece em detrimento da fornecida por outro grupo?
É certo que você precisa compreender profundamente questões técnicas que envolvem tanto a …