Pular para o conteúdo principal

Lobby deveria ser regulamentado no País, avalia pesquisadora Andréa Gozetto da Fundação Getúlio Vargas


Andréa Gozetto, da Fundação Getulio Vargas, afirma que a regulamentação da prática 

não deve ser vista como 'panaceia'.





Entrevista com Andréa Gozetto, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas

Thiago Braga - Estadão 



BRASÍLIA - Atividade pouco conhecida no Brasil, o lobby deveria ser regulamentado, mas, a legislação, sozinha, não representaria uma solução contra desvios. Essa é uma das visões apresentadas pela pesquisadora Andréa Gozetto, da Fundação Getulio Vargas, uma das autoras do livro Lobby e políticas públicas (FGV Editora), juntamente com o professor Wagner Mancuso, da Universidade de São Paulo (USP). Ao Estado, Andréa diz que a regulamentação não deve ser vista como “panaceia”. A seguir trechos da entrevista.
Por que, na sua opinião, o lobby não foi regulamentado?
A questão é que não se consegue entrar num consenso sobre as regras que vão normatizar. Pesquisas mostram que 80% do Congresso é a favor da regulamentação do lobby. Ótimo, mas como? O que vai se exigir? Um credenciamento? Relatórios trimestrais? Que tipo de informação estes atores deverão fornecer ao Estado? Tudo isso acaba sendo prejudicado porque não existe um real debate público sobre a regulamentação do lobby. 
A que se deve a resistência?
Os profissionais dizem que o lobby estar regulamentado ou não é indiferente. Para aqueles que atuam de forma ilícita tem menos impacto ainda. Se fosse fácil combater a corrupção, ela não existiria mais. A questão nevrálgica é o quanto se quer conhecer sobre a formulação das políticas públicas. A quem interessa saber? Aqueles que já fazem o lobby licitamente têm muito receio de serem assoberbados com uma série de burocracias de uma hora para a outra.
Qual é o maior lobby hoje?
Mensurar influência é difícil porque são muitas variáveis. Posso dizer quais são os lobbies mais profissionalizados, que são os dos setores mais profissionalizados e altamente regulados pelo setor público. Estamos falando de bancos, farmacêuticas, além de, obviamente, temos que falar do papel icônico da Confederação Nacional da Indústria, que, na minha opinião, é o lobby mais profissionalizado do País. Mas posso arriscar que o maior lobby é o próprio Estado. Cada um dos ministérios tem uma secretaria de assessoria parlamentar. O que eles fazem? Lobby.
No livro, há críticas a abordagem jornalística sobre o lobby, que tende a atrelá-lo a casos de corrupção. Invertendo o raciocínio, é possível dizer que a maior parte dos casos de corrupção está atrelada à relação entre interesse privado e agente público?
Não é possível inverter a lógica. A mídia faz vista grossa para notícias que dão conta do lobby lícito. O fato de reforçar sempre a ilicitude acabou tendo uma consequência muito negativa para a criminalização de uma atividade que é inerente ao regime democrático. Nem todo lobby é ilícito.
Como o lobista que atua de forma lícita pode se diferenciar?
Caracterizar todo o processo decisório como balcão de negócios é reduzir demais a complexidade dos processos decisórios brasileiros. Existem irregularidades, claro que existem. Mas não acho que é tão geral como se parece ou se quer que pareça.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quais habilidades o profissional de relações governamentais deve aprimorar para melhorar a sua performance?

Katz[1], classifica as habilidades necessárias a um profissional de gestão em três grupos principais: habilidade técnica, humana e conceitual. Essa tipologia nos será útil para entender quais desses grupos de habilidades são mais importantes para profissionais que, como você, exercem a atividade de relações governamentais. Vamos iniciar pelas habilidades técnicas, o grupo menos complexo, segundo Katz. Apesar de essenciais, as habilidades técnicas são menos complexas, pois podem ser desenvolvidas mais facilmente, bastando ao profissional adquirir conhecimentos, métodos e aprender a utilizar os equipamentos necessários para a realização de suas tarefas. Obter ou aprimorar conhecimentos sobre políticas públicas setoriais, processo decisório, processo legislativo, negociação e argumentação são um grande diferencial para esse profissional. Porém, caso haja alguma lacuna a ser preenchida, um bom workshop, curso de extensão ou pós-graduação lato sensu pode auxiliar o profissional a desenvolve…

Como aumentar a sua capacidade de persuasão?

Oi! Tudo bem?
Semana passada, enfocamos o grupo de habilidades conceituais, pois ao desenvolver essas habilidades o profissional aprimora sua capacidade prospectiva, analítica e estratégica ao aprender a pensar de forma criativa e inovadora e, ao mesmo tempo compreender ideias abstratas e processos complicados.
Porém, para persuadir e influenciar os tomadores de decisão não basta possuir um rol de habilidades técnicas e conceituais bem desenvolvido. O grupo de habilidades humana é essencial para que o profissional de relações governamentais alcance o seu objetivo: influenciar. Para influenciar é preciso persuadir. Assim, qual seria o melhor caminho para aumentar a capacidade de persuasão?
Primeiramente, é preciso destruir um mito que já se encontra enraizado em nossas mentes. É comum ouvir pessoas dizendo que algumas habilidades, como por exemplo, comunicação, expressão e observação são inatas. Portanto, se você não consegue se comunicar com outros de maneira assertiva, jamais poderá apr…

Qual habilidade desenvolver para alcançar seus objetivos?

Como você bem sabe, o profissional de relações governamentais é o agente responsável por construir um relacionamento sólido e duradouro entre a organização que representa e o governo.
Aqueles que atuam na área, como você, reconhecem que o estabelecimento desse relacionamento é muito positivo, tanto para os tomadores de decisão quanto para os grupos de interesse. Reconhecem também que os grupos de interesse colaboram para com o processo decisório estatal ao levar aos tomadores de decisão informações que eles nem sempre possuem, o que os capacitam a tomar decisões mais equilibradas acerca de importantes questões que impactam a sociedade civil e o mercado.
Mas, você já parou para pensar sobre quais são as habilidades mais importantes para o exercício da sua atividade? O que garante que o tomador de decisão leve em consideração a informação que você fornece em detrimento da fornecida por outro grupo?
É certo que você precisa compreender profundamente questões técnicas que envolvem tanto a …